4.1 – Alucinação, sugestão e inconsciente

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Em abril de 1859, o Sr. Jobert apresenta, à Academia de Ciências, o caso de Senhorita X…, de 14 anos de idade, que estava afetada, a partir dos seis anos, de movimentos involuntários regulares do músculo curto perônio lateral direito. Um ruído seco sucedia à cada contração muscular. Tendo estudado esse fenômeno, M. Jobert não hesitou em declarar que ele havia descoberto o segredo daquilo que ele chamava a grande comédia dos Espíritos batedores.

O Sr. Jobert já havia observado algum fenômeno espírita ? Não, ele tinha se contentado em estudar um fato médico que tinha uma analogia longínqua com as pancadas, e disso concluiu que a causa desse fato era a mesma de todos os fenômenos espíritas : o perônio ! Antes de pretender haver dado o golpe de misericórdia no Espiritismo, o Sr. Jobert talvez devesse se inclinar sobre os fatos espíritas ; ele teria então podido se questionar : Como este caso patológico que ele qualificava de raro pudera surgir assim tão de repente, tão comum ? Como os golpes iriam bater as portas, os muros, o teto, ou qualquer local designado, se eles tivessem por origem o perônio ? Como esse músculo crepitante poderia levantar mesas maciças sem as tocar, fazê-las atingir o teto e fazê-las se quebrar ao cair ? Como o perônio poderia tocar cordas de guitarra, compor cantos, responder às questões colocadas mentalmente, ou dar respostas nas línguas desconhecidas das pessoas presentes ?

Este episódio ilustra bem a atitude de numerosos cientistas quanto ao Espiritismo : partindo de uma idéia preconcebida de que a intervenção dos Espíritos não é possível, eles emitem hipóteses para explicar os fenômenos espíritas, sem confrontá-los com o exame dos fatos.

Uma outra teoria consiste em colocar os fenômenos sob a conta de ilusão dos sentidos ; assim, o observador seria uma pessoa de muito boa fé ; mas que acreditava ver aquilo que não via. Quando via uma mesa se elevar e manter-se no espaço sem ponto de apoio, a mesa não teria saído do lugar ; ela a via no ar por uma espécie de miragem ou um efeito de refração como aquele que faz ver um astro, ou um objeto na água, fora de sua posição real. Isso a rigor seria possível ; mas aqueles que testemunharam esse fenômeno puderam constatar o isolamento passando sob a mesa suspensa, o que parece difícil se ela não tivesse saído do solo. Por outro lado, aconteceu várias vezes a mesa se quebrar quando caía : diriam também que este é apenas um efeito ótico ?

A realidade dos fenômenos estando averiguada, o primeiro pensamento que naturalmente vem ao espírito daqueles que os reconheceram tem sido o de atribuir os movimentos ao magnetismo, à eletricidade, ou à ação de um fluido qualquer, em uma palavra, a uma causa toda física e material. Essa opinião não tinha nada de irracional e teria prevalecido se o fenômeno tivesse nascido de efeitos puramente mecânicos. Uma circunstância parecia mesmo corroborá-la : ocorria, em certos casos, o crescimento da potência em razão do número de pessoas ; cada uma delas podia assim ser considerada como um dos elementos de uma pilha elétrica humana. O que caracteriza uma teoria verdadeira, como já dissemos, é poder explicar tudo ; mas se um só fato a vem contradizer, é porque ela é falsa, incompleta ou muito absoluta. Ora, é isso o que não tardaremos a mostrar aqui. Esses movimentos e esses golpes deram sinais inteligentes, obedecendo à vontade e respondendo a um pensamento ; deviam então ter uma causa inteligente. Daí que o efeito deixa de ser puramente físico ; a causa, por si mesma, devia ter uma outra fonte, assim o sistema de ação exclusiva de um agente material deve ser abandonado e é encontrado somente entre aqueles que julgam a priori e sem ter visto. O ponto capital é constatar a ação inteligente, e disso então pode se convencer qualquer um que se dê ao trabalho de observar. O sábio William Crookes escreveu à propósito de suas pesquisas sobre o Espiritismo : ” A inteligência que governa esses fenômenos algumas vezes é manifestamente inferior à do médium ; está frequentemente em oposição direta com seus desejos. Quando uma determinação lhe era dada para que fizesse qualquer coisa que não pudesse ser considerada como um bem razoável, viam-na dar urgentes mensagens para induzir-nos a refletir novamente. Essa inteligência é algumas vezes de um tal caráter, que somos forçados a admitir que não emanava de nenhum daqueles que estavam presentes.

É incontestável, evidentemente, que se a mesa que se consulta dava respostas sobre assuntos desconhecidos dos assistentes, ou contrários a seus pensamentos, não é certamente deles que partia a resposta ; mas, como seria preciso que fosse feita por alguém, atribuímo-la a uma inteligência oculta que vinha se manifestar. Esta concepção não é uma invenção humana, porque cada vez que uma inteligência se manifestava, se lhe perguntava o que ela era, e constantemente ela respondia ser a alma de uma pessoa que habitara sobre a terra.

Uma vez reconhecida a ação inteligente, restava saber qual a fonte dessa inteligência. Pensou-se que podia ser a do médium ou dos assistentes, que se refletisse como a luz ou os raios sonoros. Isso era possível e somente a experiência poderia dar a última palavra. Mas antes de tudo, observamos que esse sistema já descartava completamente a idéia materialista ; para que a inteligência dos assistentes pudesse se reproduzir por via indireta, seria preciso admitir no homem um princípio fora do organismo.

Se os pensamentos exprimidos haviam sempre sido os dos assistentes, a teoria da reflexão teria sido confirmada ; ora, o fenômeno, mesmo reduzido a esta proporção, não seria do mais alto interesse ? O pensamento, repercutido em um corpo inerte e traduzindo-se pelo movimento e pelo ruído, não seria uma coisa bem remarcável ? Não haveria aí algo para excitar a curiosidade dos sábios ?

Somente a experiência, dissemos, poderia dar agravo ou razão a esta teoria, e a experiência lhe deu agravo, porque demonstrava, a cada instante, e pelos fatos positivos, que o pensamento exprimido podia ser, não somente estranho aos dos participantes, mas que freqüentemente o é inteiramente contrário ; o que vem contradizer todas as idéias preconcebidas, derrubando todas as previsões ; com efeito, quando penso no branco e o que me é respondido é o negro, me é difícil acreditar que a resposta venha de mim. Alguns se apoiavam sobre certos casos de igualdade entre o pensamento exprimido e o dos assistentes ; mas o que é que isso prova, senão que os assistentes podiam pensar a mesma coisa que a inteligência que se comunicava ? Não foi dito que deveriam ser sempre de opinião oposta. Quando, numa conversa, o interlocutor emite um pensamento análogo ao seu, dirá por isso que vem de você ? É bastante alguns exemplos contrários, bem constatados, para provar que essa teoria não pode ser absoluta. Como, aliás, explicar pela reflexão do pensamento, a escrita produzida por pessoas que não sabem escrever, as respostas do mais alto porte filosófico obtidas por pessoas iletradas, aquelas que são dadas às questões mentais ou numa língua desconhecida do médium, e milhares de outros fatos que não podem deixar dúvida sobre a independência da inteligência que se manifesta ? A opinião contrária só pode ser resultado de uma observação falha.

Se a presença de uma inteligência estranha fica provada moralmente pela natureza das respostas, o é também materialmente pelo fato da escrita direta, isto é, de escrita obtida espontaneamente, sem pena nem lápis, sem contato, e com todas as precauções tomadas para garantia contra todo subterfúgio. O caráter inteligente do fenômeno não poderia ser posto em dúvida ; de onde se conclui que haveria outra coisa além de uma ação fluídica. Por conseguinte, a espontaneidade do pensamento exprimido fora de qualquer expectativa, em toda questão proposta, não permite ver um reflexo daqueles dos assistentes.

Outros críticos objetam que, nas relações com o mundo invisível, o homem não se comunica somente com as almas dos mortos, mas também com vãs aparências, como larvas, formas fluídicas animadas por uma espécie de vibrações moribundas do pensamento dos defuntos. Veremos na terceira parte deste estudo, intitulado ” Provas de identidade ” que a hipótese das larvas não é de nenhuma maneira justificada ; os fatos demonstram, ao contrário, que tem relação com as almas de homens que viveram sobre a terra. Possuem um caráter essencialmente humano. A ação dos manifestantes é humana ; usam linguagem, escrita, desenhos humanos. Seus fenômenos intelectuais são marcados pelas idéias, sentimentos, emoções, em uma palavra, por tudo aquilo que constitui a trama de nossa própria existência. Suas comunicações podem ser de todos os graus, desde o trivial até aos mais sublimes, mas isso é ainda o que caracteriza o meio humano. As formas dos fantasmas materializados, nas fotografias, são aquelas de seres semelhantes a nós e nunca de demônios, de larvas ou de elementais. Acrescente a isso todos os fatos e detalhes de ordem positiva que estabelecem que os manifestantes viveram entre as gerações humanas, e chegaremos à certeza de que a regra atribuída ao demônio e às larvas nos fenômenos espíritas não são mais que o produto de uma imaginação desregrada.

Um dos fatos mais remarcáveis do Espiritismo são as moldagens de mãos e de pés materializados, na parafina fervente, e que, resfriadas, deixam os experimentadores de posse de objetos que são como testemunhas da presença e da passagem de seres invisíveis. A parafina é fundida em uma certa quantidade de água fervente. As mãos dos espíritos materializados vêm aí se molhar, depois, ainda molhadas de parafina, se retiram para serem mergulhadas a seguir num vaso de água fria, na superfície da qual os moldes permanecem flutuando. Sua abertura no punho, sendo menor que o resto da mão, seria preciso que esta pudesse se dissolver fluidicamente para deixar o molde intacto. Uma mão humana não poderia ter se desembaraçado sem quebrar o envelope.

Nenhuma alucinação, sugestão ou inconsciente são capazes de explicar este fenômeno ; somente a teoria espírita o pode.

Curiosidade:

  • As teorias pseudo-científicas, tais como a alucinação, o inconsciente ou a sugestão, para explicar o fenômeno espírita, resulta de um estudo incompleto dos fatos do espiritismo.
  • O método científico, que consiste em confrontar as teorias com os fatos, é freqüentemente abandonado, pelos cientistas, em favor de um método que consiste em levar em conta apenas os fatos que estiverem de acordo com suas idéias preconcebidas.

Para saber mais:

  • O Livro dos médiuns Allan Kardec (c. IV, 1ª parte, Sistemas)
  • O Espiritismo perante a ciência Gabriel Delanne (3ª parte, c. II, As teorias dos incrédulos e o testemunho dos fatos)
  • Que é o Espiritismo ? Allan Kardec (p.42, Falsas explicações do fenômeno)
  • No Invisível Léon Denis (2ème partie, chap. XXIII, Hypothèses et objections)
  • Les miracles et le moderne spiritualisme de Alfred Russel Wallace (appendice, de la réalité objective des apparitions)
  • Revista Espírita 1859 – p. ()
  • Revista Espírita 1861 – p.193 (Ensaio sobre a teoria da alucinação)
  • Revista Espírita 1890 – p.131, 161, 193 Alexandre Vincent (A teoria do inconsciente)
  • Revista Espírita 1922 – p.86 Alfred Bénezech (Os partidários do subconsciente)

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