3.2 – Utilidade e consequências do Espiritismo

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Qual pode ser a utilidade das comunicações com os Espíritos? Deus, nada fazendo de inútil, isto também deve ter sua utilidade. Ora essa utilidade ressalta não somente do ensinamento dos Espíritos, mas ainda e sobretudo das consequências de tal ensinamento, como veremos em seguida.

Tem-se censurado as comunicações espíritas de não apresentarem nada de novo senão aquilo que tem sido ensinado pelos filósofos desde Confúcio. O provérbio: “Não há nada de novo sob o sol” é perfeitamente verdadeiro. Mas do fato de um homem ter formulado uma ideia, se seguirá que todos os que a formularem depois dele sejam inúteis ? Sócrates e Platão não enunciaram princípios idênticos aos de Jesus ? Deve-se disso concluir que a Doutrina de Jesus tenha sido supérflua ? Se assim fosse, bem poucos trabalhos teriam uma utilidade real, uma vez que, na maior parte, se pode dizer que um outro há tido o mesmo pensamento e que lhe bastaria possuir recursos. Confúcio, por exemplo, proclama uma verdade, depois um, dois, três, cem outros homens vêm após ele e a desenvolvem, a completam, e a apresentam sob uma outra forma, se bem que essa verdade, que poderia ter permanecido nos arquivos da história e como privilégio de alguns eruditos, se popularizou, se infiltrou nas massas e acabou por se tornar uma crença vulgar. Que teria advindo das ideias dos filósofos antigos, se eles não tivessem sido revividos pelos escritores modernos ? Quantos os conheceriam nos dias de hoje ?

Suponhamos então que os Espíritos não tivessem ensinado nada de novo, que não tivessem revelado a menor verdade nova, que não tivessem feito, em uma palavra, senão repetir todas aquelas que tinham sido professadas pelos apóstolos do progresso, não seriam então nada, esses princípios ensinados hoje pelas vozes do mundo invisível em todas as partes do mundo, no interior de todas as famílias, desde o palácio às cabanas ? As massas não estariam mais compenetradas e impressionadas desses ensinamentos vindo de seus parentes ou amigos, que pelas máximas de Sócrates e de Platão que jamais leram ou que não conhecem senão de nome ? Além disso, os filósofos são frequentemente vistos como distraídos, utopistas, de belas palavras; era preciso atingir as massas no coração, e o que as atingiu foram as vozes de além-mundo que se fizeram ouvir de seu próprio lar.

A crença de que tudo acaba para o homem após a morte, de que toda solidariedade cessa com a vida, o conduz a considerar o sacrifício do bem-estar presente em proveito de outrem como um engano; daí a máxima: Cada um por si durante a vida, já que não há nada do lado de lá. A caridade, a fraternidade, a moral, em uma palavra, não têm nenhuma base, nenhuma razão de ser. Por que se incomodar, se contrariar, se privar hoje, quando amanhã pode ser que não existamos mais? A negação do porvir, a simples dúvida sobre a vida futura, são os maiores estimulantes do egoísmo, fontes da maior parte dos males da humanidade.

A crença na vida futura, mostrando a perpetuidade das relações entre os homens, estabelece entre eles uma solidariedade que não se acaba na tumba; ela muda assim o curso das ideias. Se essa crença não fosse senão um vão espantalho, não duraria muito tempo; mas como sua realidade é um fato adquirido pela experiência, é um dever propagá-la e combater a crença contrária, no interesse mesmo da ordem social. É o que faz o Espiritismo; e o faz com sucesso porque dá as provas; e definitivamente, o homem aprecia melhor ter a certeza de viver e de poder viver feliz em um mundo melhor, em compensação das misérias daqui de baixo, do que crer que se morre para sempre.

“A religião ensina tudo isso, replicarão os religiosos, quem tem necessidade de uma nova filosofia?” Se a religião é suficiente, por que há tantos incrédulos? A religião nos ensina, é verdade; nos diz para crer; mas existe tanta gente que não crê sob palavra! O Espiritismo prova, e faz ver o que a religião ensina pela teoria.

Qual é o maior inimigo da religião? O materialismo, porque o materialismo não crê em nada; ora, o Espiritismo é a negação do materialismo, que não tem mais razão de ser. Não é mais pelo raciocínio ou pela fé cega que se diz ao materialista que nem tudo acaba com seu corpo, é pelos fatos, que lhe são mostrados, fazendo-o sentir pelo tato e pela visão. Não é esse um pequeno serviço que se faz à humanidade e à religião? Mas isso não é tudo: a certeza na vida futura, o exemplo vivo daqueles que nos precederam, mostram a necessidade do bem, e as consequências inevitáveis do mal. Eis porque, sem ser uma religião, leva essencialmente às ideias religiosas; as desenvolve entre aqueles que não a possuem, as fortifica entre aqueles que estão em dúvida. A religião nisso encontra então apoio, não pelas pessoas de visão estreita que a querem inteiramente dentro do fogo eterno, na letra mais que no espírito, mas por aqueles que a veem segundo a grandeza e a majestade de Deus.

Como o Espiritismo viria triunfar sobre a incredulidade de um tão grande número, domar tantas paixões más, se não fosse pelas provas materiais que dá, e como poderia dar essas provas sem as relações estabelecidas com aqueles que não estão mais na terra? Não seria então nada o haver apresentado aos homens donde eles vêm, ou para onde vão, e o porvir que lhe está reservado? A solidariedade que ensina não é mais uma simples teoria, é uma consequência inevitável das relações que existem entre os mortos e os vivos; relações que fizeram da fraternidade entre os vivos não somente um dever moral, mas uma necessidade, porque é de interesse à vida futura.

As ideias de castas, de preconceitos aristocráticos, produtos do orgulho e do egoísmo, não têm sido em todos os tempos um obstáculo à emancipação das massas? Basta falar, em teoria, dos privilégios de nascimento e da fortuna, porém, todos os homens são iguais. O Evangelho foi o bastante para persuadir aos cristãos possuidores de escravos que esses escravos eram seus irmãos? Ora, que pode destruir seus preconceitos, nivelando a todos, mais do que a certeza de que nas últimas faixas sociais se encontram seres que já pertenceram à alta sociedade; que entre nossos servidores e entre aqueles a quem damos esmolas, podem se encontrar pais, amigos, homens que nos comandaram; que aqueles enfim que estão em altas posições agora podem descer ao último escalão? É isso então um ensinamento estéril para a humanidade? É esta uma idéia nova? Não, mais de um filósofo emitiu e pressentiu esta grande lei da justiça divina; mas não há nada como se dar prova palpável, evidente! Bem, séculos antes de Copérnico, Galileu e Newton, a redondeza e o movimento da Terra foram colocadas em dúvida; esses sábios vieram demonstrar aquilo que, para outros, era apenas suposição; assim é com os Espíritos que vêm provar as grandes verdades que permaneciam no estado de letras mortas para um grande número de pessoas, dando-lhes por base uma lei da natureza.

O estudo do Espiritismo serve para provar materialmente a existência do mundo espiritual, mundo esse formado das almas daqueles que morreram, resultando daí a prova da existência da alma e da sobrevivência dos corpos.

As almas daqueles que se manifestam revelam suas alegrias ou seus sofrimentos segundo a maneira como eram na vida terrestre; resultando disso a prova das penas e das recompensas futuras.

As almas ou Espíritos, ao descrever seu estado e sua situação, retificam as ideias falsas que têm sido feitas sobre a vida futura, e principalmente sobre a natureza e a duração das penas.

Os exemplos daqueles que morreram provam que a soma da felicidade futura está em razão do progresso moral alcançado e do bem que se haja feito sobre a Terra; que o fardo da infelicidade está em razão da carga dos vícios e das más ações; daí resulta em todos aqueles que estão bem convencidos dessa verdade, uma tendência toda natural a fazer o bem e a evitar o mal.

Quando a maioria dos homens estiver imbuída dessa ideia, professará esses princípios e praticará o bem, resultando daí que o bem imperará sobre o mal aqui em baixo; que os homens não procurarão mais se prejudicar mutuamente, que conduzirão as instituições sociais tendo em vista o bem de todos e não o lucro de alguns; em uma palavra, eles compreenderão que a lei da caridade ensinada pelo Cristo é a fonte da felicidade, mesmo neste mundo, e basearão as leis civis sobre a lei da caridade.

Aquele que se dá ao trabalho de aprofundar esta questão do Espiritismo nisso encontra uma satisfação moral muito grande, a solução de muitos problemas para os quais havia procurado em vão uma explicação nas teorias vulgares. O porvir se desenrola diante dele de uma maneira tão clara, tão precisa, TÃO LÓGICA, que se diz que, com efeito, é impossível que as coisas não se passem assim, e que é espantoso que se não a tivesse compreendido mais cedo; que era assim, um sentimento íntimo lhe dizia, que deveria ser. A ciência Espírita, desenvolvida, que não tem feito outra coisa senão formular, tirar do nevoeiro as ideias já existentes em seu foro interior, deu-lhe desde então um porvir com um propósito claro, preciso, nitidamente definido; ele não avança mais no vazio, vê seu caminho; não é mais aquele porvir de felicidade ou de infelicidade que sua razão não podia compreender, e que por isso mesmo repelia; é um porvir racional, consequência das leis mesmas da natureza, e que pode passar pelo exame mais severo. É por isso que ele é feliz, é como se tivesse sido aliviado de um peso imenso; aquele da incerteza, porque a incerteza é um tormento. O homem, a despeito dele próprio, sonda as profundezas do porvir, e não se tolhe ante a visão do eterno; o compara à brevidade e à fragilidade da existência terrestre. Se o porvir não lhe oferece nenhuma certeza, ele se aturde, se dobra sobre o presente, e tudo faz para o tornar mais suportável. É em vão que sua consciência lhe fala do bem e do mal, e ele retruca : O bem é aquilo que me torna feliz. Que motivo teria ele, com efeito, de ver o bem alheio? Por que sofrer privações? Ele quer ser feliz, e para ser feliz, quer gozar, usufruir daquilo que possuem os outros; quer o ouro, muito ouro; atira-se nessa via, porque o ouro é o veículo de todos os gozos materiais; que lhe importa o bem-estar de seu semelhante? O seu antes de tudo; quer se satisfazer no presente, não se importando se o poderá mais tarde, num porvir no qual não crê; torna-se então ávido, ciumento, egoísta, e apesar de tudo o que desfruta, não é feliz, porque o presente lhe parece muito curto.

Com a certeza do porvir, tudo muda para ele; o presente não é senão efêmero, e o vê escoar sem desgosto; é menos preso aos gozos terrestres, porque não lhe dão senão uma sensação passageira, fugidia, que deixa a vida sem coração; aspira a uma felicidade mais duradoura, e por consequência mais real; e onde a pode encontrar, se não for no porvir? O Espiritismo, mostrando, provando esse porvir, o livra do suplício da incerteza, eis porque o torna feliz; ora, aquilo que traz a felicidade sempre encontra partidários.

Os tempos da crença cega são passados; hoje se torna necessário, para que uma teoria filosófica, moral, religiosa seja aceita, que esta repouse sobre o inabalável fundamento da demonstração científica. Outros tempos, outros costumes: o mundo antigo se apoiava sobre a revelação, agora é preciso a certeza lentamente conquistada; a lei não basta, é indispensável que a razão sancione o que querem nos fazer aceitar como verdades.

O grande poder do Espiritismo consiste na liberdade de exame que deixa a seus adeptos. Todos os seus princípios podem ser discutidos e postos em questão, mas a cada vez que essa experiência tem sido feita, ele sai mais forte e mais robusto do que antes dessa tremenda prova. As religiões, no momento atual, se assemelham a esses cercados que têm sido indispensáveis às crianças para aprenderem a andar, mas que se tornam inúteis e mesmo prejudiciais tão logo tenham elas adquirido bastante desenvolvimento para andarem sozinhas. O homem do século dezenove, aprisionado em um dogmatismo estreito, porque esses ensinamentos não estavam mais em harmonia com seus conhecimentos, forçado a escolher entre as certezas da ciência e a fé imposta, se lançou de corpo e alma no materialismo. Mas, se esse homem reencontra uma doutrina que concilia a fé às exigências da ciência e às necessidades de sua alma de crer em alguma coisa, não hesita mais: adota essa nova fé, que satisfaz tão bem a todas as suas aspirações. Essas considerações sumárias explicam a imensa extensão do Espiritismo. Não é preciso crer, todavia, que o espiritismo seja oposto às religiões; apenas combate os abusos, e dirige-se mais particularmente aos materialistas e àqueles que, sem ser completamente ateus, estão indecisos com relação à vida futura.

Em lugar de ser ridicularizada e combatida, esta doutrina deveria se encontrar na base de todo ensinamento moral ou religioso. Dando ao homem a prova evidente de que sua passagem sobre a terra é apenas temporária, que terá de responder mais tarde pelo bem ou pelo mal que haja feito, impõe uma contenção salutar aos maus instintos, que, sobretudo em nossos dias, ameaça transtornar a sociedade. O Espiritismo faz conhecer com efeito, as condições em que a alma se encontra após a morte. Em vez de considerar o espírito de maneira abstrata, nossa doutrina demonstra que ele é, após a morte, uma verdadeira individualidade, que não tem menos realidade que o homem; ficando mudada somente a natureza dos corpos uma vez que as condições de existência não são mais as mesmas.

Curiosidade:

  • O Espiritismo não pede nenhum ato de fé ; trazendo a prova da sobrevivência, dá a certeza na vida futura.

Para saber mais:

  • Que é o Espiritismo ? Allan Kardec. (p. 90-91 e p.109-115, p. 154-159)
  • O Evangelho segundo o Espiritismo de Allan Kardec. (cap. I, O Espiritismo, Aliança da ciência e da religião)
  • O Céu e o Inferno Allan Kardec. (1ª parte, cap. I)
  • No Invisível Léon Denis. (cap. XI, aplicações morais e frutos do espiritismo)
  • O Espiritismo perante a ciência Gabriel Delanne.(3ª parte, cap. III, as objeções, p. 229-230 e p. 241-242)
  • Le phénomène spirite Gabriel Delanne. (4ème partie, Matérialisme et Spiritisme)
  • A Revista Espírita 1860 – p.1 Allan Kardec. (O Espiritismo em 1860)
  • A Revista Espírita 1863 – p.357 Allan Kardec. (Utilidade dos ensinamentos dos E…)
  • A Revista Espírita 1865 – p.225 Allan Kardec. (O que aprende o Espiritismo)
  • A Revista Espírita 1867 – p.33 Allan Kardec. (O livre pensamento e a livre…)

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