2.3 – Entre o Espiritismo Cristão e o Espiritismo experimental

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Existem duas tendências do Espiritismo: o Espiritismo experimental e o Espiritismo cristão. O primeiro, mais orientado sobre o fenômeno espírita, procura reunir as provas da sobrevivência do ser. O segundo, se apoiando sobre o primeiro, procura difundir mais o lado filosófico e moral dos ensinamentos dos Espíritos.

Observemos, escreveu Léon Denis, que há uma tendência, de parte de certos grupamentos, de dar ao Espiritismo um caráter sobretudo experimental, de se ater exclusivamente ao estudo dos fenômenos, de negligenciar aquilo que tem um caráter filosófico; tendência de rejeitar tudo que pode recordar, um pouco que seja, as doutrinas do passado, para se acantonar sobre o terreno científico. Nesse meio, se visa descartar a crença e a afirmação de Deus como supérfluas, pelo menos como sendo de uma demonstração impossível. Pensa-se assim atrair os homens de ciência, os positivistas, os livres pensadores, todos aqueles que experimentam uma certa aversão pelo sentimento religioso, por tudo aquilo que tem uma aparência mística ou doutrinal.

De outro lado, se quer fazer do Espiritismo um ensinamento filosófico e moral, baseado sobre os fatos, um ensinamento suscetível de substituir as velhas doutrinas, os sistemas antiquados e de dar satisfação às numerosas almas que procuram antes de tudo consolações para suas dores, uma filosofia simples, popular, que as repousem das tristezas da vida.

De um lado como do outro, há multidões a satisfazer; muito mais mesmo de um lado que do outro, porque a multidão daqueles que lutam e sofrem ultrapassa em grande número aquela dos homens de estudo.

Para sustentar essas duas teses, vemos de uma e de outra parte homens sinceros e convictos, às qualidades dos quais nos apraz render homenagem. Porque precisaríamos optar? Em que sentido convém orientar o Espiritismo para assegurar sua evolução? O resultado de nossas pesquisas e de nossas observações nos leva a reconhecer que a grandeza do Espiritismo, a influência que exerce sobre as massas provém sobretudo de sua doutrina; os fatos não são senão os fundamentos sobre os quais o edifício se apoia. Correto! As fundações são essenciais em todo edifício, mas não é nas fundações, quer dizer nas construções subterrâneas, que o pensamento e a consciência podem encontrar um abrigo.

Aos nossos olhos, a missão real do Espiritismo não é somente de esclarecer as inteligências por um conhecimento mais preciso e mais completo das leis físicas do mundo; ela consiste sobretudo em desenvolver a vida moral entre os homens, a vida moral que o materialismo e o sensualismo têm minorado bastante. Erguer os caracteres e fortificar as consciências, tal é tarefa capital do Espiritismo. Sob esse ponto de vista, pode ser um remédio eficaz aos males que estão sitiando a sociedade contemporânea, um remédio a esse crescimento inaudito do egoísmo e das paixões que nos empurram aos abismos.

Cremos dever exprimir aqui nossa inteira convicção: Não é fazendo do Espiritismo somente uma ciência positiva, experimental; não é eliminando aquilo que há de elevado nele, aquilo que arrasta os pensamentos de sob horizontes estreitos, isto é a idéia de Deus, o uso da prece, que se facilitará sua tarefa; pelo contrário, isso só o tornaria estéril, sem ação sobre o progresso das massas.

Há outra coisa ainda. Mesmo em nos acantonando sobre o terreno do estudo experimental, há uma consideração capital onde devemos nos inspirar. É a natureza das relações que existem entre os homens e o mundo dos Espíritos; é o estudo das condições a preencher para tirar dessas relações os melhores efeitos.

Desde que se aborde esses fenômenos, somos surpreendidos pela composição do mundo invisível que nos rodeia, pelo caráter dessa multidão de espíritos que nos envolvem e procuram sem cessar se imiscuir em relações com os homens. Em torno de nosso planeta atrasado flutua uma vida possante, invisível, onde dominam os espíritos levianos e zombadores, aos quais se misturam espíritos perversos e malfeitores. Há também os apaixonados, os viciados, os criminosos. Eles deixam a terra com a alma cheia de ódio, o pensamento alterado pela vingança; esperam na sombra o momento propício para satisfazer seus rancores, seu furor, às custas de experimentadores imprudentes e imprevidentes que, sem precaução, sem reserva, abrem, bem abertas, as vias que fazem a comunicação de nosso mundo com aquele dos Espíritos.

Felizmente, ao lado do mal está o remédio. Para nos livrar das influências maléficas, existe um recurso supremo. Possuímos um meio possante para afastar os espíritos do abismo e fazer do Espiritismo um elemento de regeneração, um apoio, um reconforto. Esse recurso, esse preservativo, é a prece, é o pensamento dirigido a Deus! O pensamento em Deus é como uma luz que dissipa as sombras e afasta os espíritos das trevas; é uma arma que afasta os espíritos malfeitores e nos preserva de suas emboscadas. A prece, enquanto ardente, improvisada, e não uma recitação monótona. Tem um poder dinâmico e magnético considerável; atrai os espíritos elevados e nos assegura sua proteção. Graças a esses, podemos então comunicar com aqueles que amamos na terra, aqueles que foram carne de nossa carne, sangue de nosso sangue e que, do seio dos espaços, estendem seus braços para nós.

Para entrar em relação com as potências superiores, com os espíritos esclarecidos, são precisos a vontade e a fé, o desinteresse absoluto e a elevação de pensamentos. Fora dessas condições, o experimentador seria um joguete dos espíritos levianos. “O que se assemelha se reúne”, diz o provérbio. Com efeito, a lei da afinidade rege o mundo das almas como o dos corpos.

Há então necessidade, do ponto de vista teórico como do ponto de vista prático, necessidade do ponto de vista do progresso do Espiritismo, de desenvolver o senso moral, de se ligar às crenças fortes, aos princípios superiores, necessidade de não abusar das evocações, de não entrar em comunicação com os Espíritos senão dentro das condições de recolhimento e de paz moral.

O Espiritismo foi dado ao homem como um meio de se esclarecer, de se melhorar, de adquirir as qualidades indispensáveis à sua evolução. Se destruísse nas almas, ou somente se negligenciasse, a idéia de Deus e as aspirações elevadas, o Espiritismo poderia se tornar uma coisa perigosa. É por isso que não hesitamos em dizer que se entregar às práticas espíritas sem depurar seus pensamentos, sem os fortificar pela fé e pela prece, seria fazer uma abertura funesta, onde a responsabilidade poderia recair pesadamente sobre os outros.

Curiosidades:

  • O lado mais elevado do Espiritismo é sua força moral ; por ela, é inatacável.
  • O propósito essencial do Espiritismo é a melhoria dos homens ; em se acantonando no domínio dos fatos, é estéril.

Para saber mais:

  • La Grande Enigme de Léon Denis. (1ère partie, chap. VII)
  • La Table, le Livre et les Esprits de François Laplantine (4ème partie, chap. II)
  • Allan Kardec, sa vie, son ouvre d’André Moreil (chap. VI et VII)
  • Le Spiritisme Christique de Gaston Luce (en fascicule ou dans le livre Spiritisme et rénovation)

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