Psicanálise e Intolerância Religiosa

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A Interdição do Simbólico e o Recalque do Sagrado da Umbanda

Neste trabalho optou-se por um olhar influenciado pela psicanálise para desmontar alguns aspectos de um capítulo pouco discutido dentro dos direitos da pessoa humana: a intolerância religiosa.

Entende-aqui que tanto a pesquisa participante como a teórico-documental se beneficiam efetivamente com as contribuições da psicanálise. Entretanto, optou-se por uma compreensão da psicanálise que contextualizasse o máximo possível o campo social, distanciando-se da leitura ideológica e conservadora que tranca a obra freudiana nas paredes do consultório ou a esteriliza das contradições do campo social 1, 3.

Em uma metáfora apropriada entende-se que é necessário colocar a “psicanálise em uma mochila nas costas e sair pelo mundo, feito andarilho curioso e defensor da palavra que circula sem fronteiras, mas com lei.

Uma das inúmeras possibilidades de ligar a subjetividade e a cultura são os símbolos que, compartilhados, podem congregar, gerando pertencimento ou quando não compartilhados podem opor, gerando não pertencimento, estranhamento ou oposição. Esse processo é diferente da intolerância e do preconceito nos quais ocorre a interdição simbólica.

A obra de Freud ressaltou que a cultura produz um mal-estar nos seres humanos, pois há uma contradição quase inevitável entre a dinâmica pulsional e a normatização civilizatória. A efetivação da ordem social requer a renúncia efetiva da plena satisfação pulsional.

É na concepção psicanalítica da cultura que se reconhece a sexualidade humana como uma das mais fortes investidoras na manutenção e reprodução de uma sociedade. Partindo de um olhar freudiano, a civilização só é possível porque a sexualidade pode ser canalizada para o trabalho.

Na história da humanidade houve consideráveis esforços para regular a sexualidade que, quase sempre, mostrou-se um forte aliado da opressão descarregando os investimentos pulsionais das buscas pela liberdade e emancipação. Resguardado ainda pelo domínio econômico e militar, a opressão completava-se com a dimensão cultural e religiosa, mesmo quando havia a separação Igreja e Estado, pois um acordo tácito se estabelecia.

Essa questão foi percebida pelos primeiros missionários que aliados aos conquistadores foram para a África para conhecer a cultura e a religião dos africanos e convertê-los ao cristianismo. As missões assistencialistas e/ou humanitárias são recentes na história Africana, pois a religião dos colonizadores quando não serviu aos dominantes foi, no mínimo, conivente.

Após muito tempo e muitas vidas foi se percebendo que era mais fácil adaptar as religiões lentamente e/ou tolerar a mixagem de símbolos e signos representacionais. Mas não foi um planejamento estratégico, mas sim algo que foi acontecendo ao longo do tempo, um desmonte simbólico e imaginário foi realizado paulatinamente. O recalque aparece depois da repressão.

Já foi exaustivamente discutido que os colonizadores portugueses seguiram essa lógica e lançaram-se a África para saciar as suas necessidades econômicas, políticas e territoriais. Levaram consigo as marcas de seu tempo e o modelo de civilização. Levaram consigo também sua posição frente ao estranho e ao estrangeiro. Levaram seus símbolos e seu sagrado e pela opressão articularam suas primeiras interdições.

O que a história também mostrou é que a opressão cultural e religiosa mostrou-se mais eficiente que a militar. Tendência essa que Portugal levou em suas dominações e ampliou em suas colônias. O enfraquecimento do universo simbólico e imaginário serviu de base para a imposição das religiões convenientes aos dominadores. A angustia triunfaria sobre o prazer abrindo as portas do recalcamento.

Esse processo com os portugueses tomou no Brasil, no mínimo, duas direções: sobre os negros, trazidos da África e sobre os índios neste país. Cada um com sua especificidade e cultura foi vítima da opressão e da aculturação colonizadora sob égide de uma cruel intolerância. Em nome de uma cultura que se acreditava superior.

Entretanto, não houve como frear a miscigenação étnica e cultural e a opressão ocorreu na valorização de uma estética branca, cristã e européia e na desvalorização das matrizes culturais ou dos resultados das complexas misturas e recriações que aqui se fizeram. Embora não tenha como frear esse processo há muitas estratégias latentes ou manifestas de desqualificação desse conteúdo ou de sua legitimidade.

A contradição maior é que o mecanismo de opressão não opera exclusivamente de fora para dentro, ou seja, não se constitui unicamente como uma ação exterior ao indivíduo. Embora isso ocorra, e muitas vezes, de modo cruel, é nos mecanismos de internalização desse controle ou na constituição da subjetividade, a partir dele, que se legitima essa ideologia.

Absorver uma mitologia fracionada e distorcida pela opressão e pela colonização instituiu características e contradições na comunhão de uma nação em formação e sua miscigenação com as diversas culturas indígenas, africanas e das demais correntes migratórias que vieram ao Brasil ao longo do século XX.

O neoconservadorismo revive sobre a égide da modernidade a mesma opressão. Atualiza o enfoque e as estratégias, mas seus temas e objetivos são os mesmos. Em vez dos colonizadores, pessoas, grupos e instituições se asseguram de que nada ou pouco efetivamente se modifique.

A intolerância religiosa, assim como o preconceito, é reproduzida nas práticas e nas falas cotidianas. Expande-se seu efeito mais rapidamente que as resistências e as recriações advindas da miscigenacão. A grande armadilha é quando desprovidos de sua simbologia representacional os oprimidos aceitam passivamente esse preconceito e secolocam impotentes frente a intolerância, ou seja, recalcam seu próprio sagrado.

Ao se desvalorizar ou desqualificar indivíduos ou grupos se efetiva uma dominação política e cultural. Ao se praticar formas de violência ou constrangimento contra símbolos, imagens, templos ou livros sagrados se perpetua a mesma dominação.

A história das grandes expansões econômico-territoriais pode ser contada também com as estratégias de aculturação e dominação do repertório simbólico-imaginário dos povos. Não foi diferente com a dominação ibérica na África.

A estratégia utilizada era a mesma: demonizar ou primitivizar a cultura estrangeira. Ambas as estratégias foram utilizadas. Tanto com os negros trazidos para o Brasil como com os índios que aqui habitavam. A conversão tinha um significado que ia muito além da fé.

A Umbanda surgiu no começo do século XX em um período que o Brasil busca freneticamente um espaço maior no cenário cultural mundial. A identidade nacional ganha amplitude. O auge desse movimento é a semana de arte moderna em 1932. As revoluções políticas, estéticas e éticas do começo século XX permitem a utopia brasileira ganhar contornos mais fortes.

Mesmo nesses períodos havia uma clara desvalorização de seu status e na sociedade as famílias mais influentes e a Igreja Católica sempre ofereceram grande resistência. Mais recentemente essa intolerância radicalizou-se em algumas Igrejas neo-pentencostais que abriu duas frentes de combate a hegemonia católica e a Umbanda.

Essa contradição, como explicado, brevemente, em tópico anterior, deve-se pela Umbanda ser uma religião recente e em formação. Sem falar em sua diversidade, pois não há uma codificação uniforme e normatizadora. Convivem dentro da mesma religião diferentes concepções sobre a mesma entidade.

Desde a idade média escolheu-se o Diabo com significante do mal e o signo que possibilitaria a interdição a partir do universo cultural e religioso. No universo simbólico, imaginário, cultural e sagrado dos negros e dos índios não havia uma entidade que representasse o mal em sua totalidade. Essa aculturação só foi possível pelas adaptações e distorções ocorridas no arcabouço original.

Essa característica tornou apenas parcial a internalização dessa perspectiva, mas isso foi suficiente para distorcer o universo simbólico, imaginário e cultural desses povos. Além disso, no caso do Brasil, os europeus que vieram para cá tomaram de algum modo essa perspectiva como paradigma.

Essa estratégia criou raízes na elite política, religiosa e em parte da sociedade brasileira. Alguns séculos depois essa opressão é revivida por estratégias modernas ou variações dos mesmos temas, conservando os mesmos objetivos.

Há, evidentemente, um tratamento geral desses povos, pois o objetivo deste trabalho é compreender o processo. A violência é ainda maior, pois há complexidades enormes entre as nações indígenas no Brasil e as nações africanas.

Essa opressão revela uma luta ideológica nos campos da cultura e da religião. Esse não é um confronto direto, mas latente em um universo representacional já absorvido e sedimentado na sociedade. Não por acaso revive em retornos a tradição ou em roupagens modernas ideologias que recoloquem a dicotomia do bem contra o mal.

A corporalidade e a sexualidade são fatores decisivos na construção da identidade pessoal, e de certa forma, do equilíbrio emocional. O corpo sente, pensa e expressa. A sexualidade também é uma forma de expressão corporal, afetando o ser humano intimamente, de forma tanto positiva como negativa. É altamente dependente de crenças e valores inseridos pela sociedade.

A existência de uma religião que abrisse mão de seu controle sobre a vida sexual, econômica e política das pessoas incomodava tanto a igreja, quanto ao estado. Além do poder econômico atrelado a conquista de novos territórios, havia implícita a necessidade de controle político e psicossocial desses territórios e de seus habitantes a fim de perpetuar essa dominação.

Na Umbanda existe algo pitoresco, pois ela é uma religião genuinamente brasileira que tem suas fontes principais na multiplicidade de cultura e religião da África e dos índios brasileiros. A Umbanda conservou e ampliou esse arcabouço cultural e religioso com o catolicismo popular, o espiritismo europeu e outras influências de correntes migratórias que aconteceram no Brasil.

Como uma religião original brasileira, a Umbanda reuniu um sistema simbólico-imaginário repleto de mixagens e diversidade com uma inquestionável vocação para uma síntese transformadora, indo mais além do caleidoscópio cultural e da miscigenação inicial.

A Umbanda tomou forma a partir da manifestação mediúnica de uma entidade genuinamente brasileira, o Caboclo Sete Encruzilhadas que anuncia a nova religião dentro de uma sessão espírita. Há nesse evento uma ruptura no campo religioso com o surgimento de uma religião dos oprimidos, cunhada na história e na formação do povo brasileiro.

Conta-se que essa entidade não aceitou a opressão dos negros, índios e das crianças nem no plano físico nem no plano espiritual, muito comum na sociedade brasileira e nas religiões européias existentes no Brasil.

A manifestação dessa entidade deu-se em uma sessão kardecista em que entidades indígenas, africanas ou de crianças eram consideradas espiritualmente atrasadas. Interessante notar que a repressão utilizada em determinados ramos do kardecismo cumpria a função semelhante ao catolicismo hegemônico, pois a Umbanda era considerada atrasada e inferior.

A Umbanda veio como um vento revolucionário sobre a mesmice alienante das religiões existentes no Brasil. Uma religião do proletariado social e espiritual. Uma religião da natureza em um país de natureza tão intensa. A religião da modernidade e do novo mundo, edificada na esperança de um mundo mais justo e mais fraterno.

A Umbanda foi desenvolvendo-se em meio à opressão das religiões hegemônicas e da repressão contra negros, índios e todos os imigrantes. Surgiu em um país que abrigou diferentes culturas e do sagrado forjado a partir de toda essa mixagem. Ergueu-se rica na diversidade e na complexidade de uma nação mestiça.

A ousadia da Umbanda foi além do que poderia se imaginar. Sua riqueza lhe permitiu recolocar o desejo no campo religioso e dar a ele voz e continente. Esse processo custou a Umbanda enfrentar a moral conservadora e repressora de uma sociedade que deseja e teme a autodeterminação no campo a sexualidade, do poder e da cultura, para citar três campos.

A resistência de pessoas e grupos ligados as religiões dominantes precisava eleger um signo que pudesse ser manipulado e ser utilizado como foco da demonização e da interdição. Os movimentos conservadores e neoconservadores precisavam de ícones para sua estratégia.

Com uma linguagem mais moderna ou mais tradicional precisavam reverter ou limitar o avanço da Umbanda depois dos períodos de exaltação da nacionalidade e identidade brasileira.

Em um estado de direito democrático as estratégias são mais sutis, embora a impunidade às vezes permita afrontas legais às liberdades de culto e manifestações culturais.

A demonização ou a dessacralização do universo simbólico e imaginário da Umbanda acompanhou suas raízes africanas, indígenas e migratórias, mantendo como objetivo essencial interditar culturas estrangeiras e impedir o surgimento de novas.

Essa opressão pretendia oferecer uma alternativa ilusória ao mal-estar hegemônico privilegiando a moralidade erguida na repressão sexual e na desconstrução da participação política. Impedia-se, a partir daí, a palavra ao outro. Com esse processo se interditava a sua autonomia simbólica e representacional.

Apesar da opressão ocorreu certa a mixagem cultural de índios, brancos e negros no Brasil. Entretanto esse processo se fez de modo desigual privilegiando a cultura dominadora, ou seja, branca e européia. As formas de resistência cultural permitiram uma sobrevivência limitada do arcabouço simbólico e imaginário que contextualizava os ritos e as entidades da Umbanda. Torna-se importante destacar que a Umbanda, atualmente, é considerada por muitos uma religião brasileira ao invés de afro brasileira 6, 9 .

Com essa dominação simbólica imaginária e as formas policiais e políticas de repressão o universo representacional da Umbanda lentamente incorporou e passou a reproduzir a mixagem entre a demonização dos signos e símbolos culturais e religiosos e as concepções que lhe constituíam (indígena, africana e européia).

Esse processo só facilitou o desmonte da significação original do arcabouço simbólico e representacional e com sua diversidade permitiu dois processos antagônicos concorrerem: a riqueza simbólica, imaginária e cultural e a fragmentação e o isolamento. Em contra partida embora divergente as forças neoconservadoras concentrassem suas distorções nos símbolos sagrados da Umbanda.

A ideologia religiosa conservadora e neoconservadora, ainda muito influentes no Brasil, atribuem à mulher um papel secundário na sociedade e no controle de seu corpo e de seus desejos. Recusa-se a entendê-la como o homem e aposta em políticas sexistas.

De todo modo, o processo opressor de demonização e da interdição da umbanda e de suas entidades, pode-se citar como exemplo mais significativo, os Pretos e Pretos Velhas, os Caboclos e Juremas, e, é claro os Exus e as Pombas Giras, onde se pretendeu destituir a utopia libertária dos povos formadores da brasilidade. Esse processo ocorreu tanto no campo político, como no campo econômico, cultural ou religioso. Infelizmente, essa perspectiva ainda encontra eco ou novas roupagens na sociedade atual.

Não se precisa ir longe para ver as manchetes com manifestações ou demonstrações de intolerância religiosa que revelam um temor com o desmonte dessa posição sexista e libertária e com a provável ruptura com o poder político e econômico com as religiões repressoras da autodeterminação da palavra e do desejo.

Em um estado democrático de direito, a demonização é, criminosa, pois contraria aos direitos fundamentais da pessoa humana por atos e ações preconceituosas. Tais ações constituem uma violação da liberdade e da democracia.

Como a Umbanda recolocou o humano no campo religioso e nele compreendeu o corpo, a sexualidade e a vida como pertinentes de uma escuta no campo religioso a ideologia hegemônica cultural e religiosa viu seu poder ameaçado e os temores lançados por Sigmund Freud tomaram proporções enormes aos seus olhos opressores e controladores.

O ataque dessas religiões as entidades e ao arcabouço simbólico, cultural e religioso da Umbanda ressalta uma preocupação política e sexual com o status-quo dominante. Tomado a partir desses discursos a mulher é entendida como um ser semi-autonômo que não é capaz nem mesmo de controlar seus desejos.

A Umbanda não está imune as questões levantadas por Freud no que se refere à relação da religião com a sexualidade. Entretanto, a Umbanda parece levar novos componentes para esse debate, desmontando estratégias conservadores do controle do desejo, ao propor uma auto-gestão responsável dos desejos.

A fronteira entre consciência e ilusão é, na maioria das vezes, imperceptível. Mas a subjetividade não nega a consciência, apenas a requalifica. Mesmo assim, torna-se importante ressaltar que a consciência tem seus limites de possibilidade. Isso não significa que deva ser confundida com a crença ilusória.

O mais incrível é que em ainda hoje convive-se tanto com a repressão como com o recalque do universo simbólico, imaginário, cultural e religioso do outro. Ou nada significam os recentes episódios, no Rio, São Paulo, Curitiba e Jaraguá do Sul, pra situar alguns em que de modo mais violento ou sutil os Umbandistas foram oprimidos ou desautorizados.

A luta pelos direitos humanos e neles os direitos religiosos, culturais, políticos, sexuais, para citar alguns, continua e ganhou novos contornos com o aperfeiçoamento das estratégias de repressão e controle. Interditar o universo representacional é um modo sutil de burlar as leis dos países democráticos.

Alem da eterna vigilância e militância pelos direitos humanos são necessários projetos políticos efetivos e uma educação para a paz e cidadania 7 que entenda a igualdade na diversidade e desde cedo ofereça condições para que as pessoas caminhem mais alem da tolerância, ou seja, respeitem e conheçam o universo simbólico do outro.

Sidney Oliveira – sidney@ufpr.br
Prof. Dr. da Universidade Federal do Paraná (UFPR)


Estudo apresentado no III Encontro Nacional do GT (Grupo de Trabalho) de História das Religiões e das Religiosodades, em 2010 na Universidade Federal de Santa Catarina – Florianópolis.

Artigo publicado na Revista Brasileira de Historia das Religiões e Religiosidades de 2011

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